A música sob medida de Lucina

Em entrevista, a cantora, compositora e instrumentista fala sobre o novo CD e passagens de sua carreira

Lucina - Foto: Fábio Vizzoni

Ela é uma das principais compositoras da história da MPB. Suas músicas já foram gravadas por Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Joyce, Nana Caymmi, entre outros. E ela agora está lançando seu 4º CD, “A música em mim”, pelo selo Duncan Discos.

Em uma tarde chuvosa do outono carioca, com clima de inverno, Lucina recebeu Música & Letra, falou sobre o novo álbum, parceiros, projetos e relembrou passagens de sua vida:

Música & Letra Seu novo CD tem produção de Bia Paes Leme, e é lançado pelo selo Duncan Discos, da cantora Zélia Duncan. Como aconteceu este encontro que resultou neste trabalho?
Lucina Bom, na verdade eu sou parceira de Zélia em muitas coisas, em um trabalho bastante vasto. No ano passado Zélia me convidou pra tomar um chá na casa dela, e me fez o convite pra gravar através do selo. Bia é uma amiga muito antiga, que conhece o meu trabalho há muitos anos, e que sempre teve um carinho muito especial pelo meu trabalho. Nós três juntamos as nossas cabeças e escolhemos juntas o repertório. Resumindo: Bia e Zélia queriam mostrar, e mostraram, acredito, pro público, a compositora madura que eu sou. Então, toda a escolha desse repertório veio a partir disso, o conceito de beleza, o conceito de mensagem mesmo. É um trabalho maduro, que vem com uma sofisticação, e ao mesmo tempo, extrema simplicidade. É um disco feito por mim e mais quatro músicos, com uma participação especial aqui ou ali, um arranjo de cordas mas, na verdade, é um trabalho feito por poucas pessoas, mas “aquelas pessoas”.

Música & Letra Quais são os compositores que estão com você em “A música em mim?
Lucina Eu fiquei 25 anos trabalhando em dupla, sendo parte da dupla Luhli & Lucina. Então, a partir da hora que a dupla se desfez, eu abri muito o meu leque de parcerias. Zélia Duncan é a minha segunda parceira em quantidade de músicas. Paulinho Mendonça é o terceiro. Mas aí eu tenho músicas com mais umas quarenta pessoas, e eu coloquei bastante gente neste CD. Então tem músicas com a Zélia, com a Luhli, Paulinho Mendonça, Sonya Prazeres, Joãozinho Gomes e Vicente Barreto, sendo que todas as músicas são minhas, e as letras são dessas pessoas. Mas no caso do Vicente Barreto a gente trocou: é música dele e a letra é minha.

Música & Letra Você falou entre Música & Letra. Qual a sua preferência? a melodia ou a composição, a montagem das letras?
Lucina Na verdade eu sou uma melodista. O meu negócio, o meu forte é a canção, é a música, é a harmonia. Mas eventualmente eu dou “os meus pitacos”, escrevo umas coisas e inverto esse processo. As vezes eu faço letra junto com o letrista, mas de uma maneira geral não é questão de preferência não, é uma questão de talento. Eu tenho mais talento pra música. De vez em quando eu dou uma acertada com uma letra, mais ou menos assim.

Música & Letra Falando em parcerias, por que a dupla Luhli & Lucina se desfez?
Lucina Na verdade a dupla Luhli & Lucina foi mais que uma dupla musical. A gente era uma dupla na vida, a gente tem uma história que é uma lenda, porque nós vivemos em tribo, nós fomos hippies, criamos os filhos juntos, fomos para o mato… tem toda uma história que é bem legal, mas, pelo correr natural, eu acho que quando você fica muito tempo fazendo dupla com alguém, você acaba entrando numa onda muito “persona”, você acaba perdendo a identidade, você se funde numa terceira coisa que é a dupla. Você não é café nem leite, é café com leite, entende? Então, essa partida pra cada uma fazer o seu trabalho solo foi muito em função da gente querer que as pessoas vissem – e que a gente mesmo visse – o que era a gente dentro da dupla. Foi um processo mesmo de identidade, que ganhou rua, que ganhou estrada e, agora, a Luhli tá chegando com o trabalho solo dela, e é muito interessante porque tá saindo junto com o meu quarto disco solo, e que define muito bem qual é a de cada uma.

Música & Letra Você está desenvolvendo um projeto ecológico com a Tetê Espíndola, com patrocínio da Natura. Conta pra gente o que vai acontecer.
Lucina Bom, eu sou metida em causas ecológicas desde sempre. Ajudei no tombamento da Chapada dos Guimarães, sou vinculada ao movimento pela preservação das águas do planeta, já fiz muitos shows em função disso. A Tetê mandou um projeto pra Natura, que foi aprovado, e a ideia é a seguinte: nós vamos descer o Rio Cuiabá e, em seguida, o Rio Paraguai, começando em Cuiabá e chegando até Corumbá. São 15 dias, e a gente vai parando nas cidades ribeirinhas. Nessas cidades rola um show e oficinas de reciclagem, meio ambiente e canto. Eu sou a responsável pelas oficinas de meio ambiente, e eu trabalho com essas oficinas através do teatro.

O novo CD de Lucina, "A música em mim"
O novo CD de Lucina, “A música em mim”

Música & Letra Você também tem um outro projeto chamado “Música sob medida” que, através de informações fornecidas pelas pessoas, você cria músicas conforme a ocasião. Explica pra gente como funciona.
Lucina Bem, eu dou aula de composição, de criatividade musical e também faço preparação vocal para teatro. Pesquisando essa coisa da composição, cheguei a conclusão que as pessoas mitificam um pouco a criação. Claro que é uma coisa que deve ser incentivada, mas eu acredito que qualquer pessoa pode fazer música, desde que ela esteja motivada corretamente. Das oficinas de composição tendo a confirmação, quer dizer, a minha teoria dá certo. A partir daí comecei a aceitar jingles, coisas que eu não fazia, trabalhos para publicidade, trilhas musicais pra cinema, teatro. Até que um dia alguém disse pra mim: ” – você não quer fazer uma música de presente de aniversário?” eu falei: ” – faço”. Foi um sucesso a tal música, e aí outro pediu, outro pediu e eu pensei: ” – de repente posso fazer alguma coisa de encomenda também, pra festas, pra ocasiões, casamentos, namoro… pra várias emoções. E aí, conversando com meu amiguinho Beto Feitosa, ele me sugeriu criar um site, pra fazer aquilo que eu já fazia, organizadamente.

Música & Letra Neste mês de junho o ECAD está lançando uma campanha com o intuito de receber de escolas, igrejas ou até mesmo festas de rua, o percentual por execução de músicas em espaço público. O que você acha disso? os valores recolhidos pelo ECAD chegam mesmo aos compositores?
Lucina Chega, chega sim. Mesmo que a gente não tenha um controle absoluto que indique que o que está chegando é o real daquilo que está se recolhendo, de uma maneira ou de outra chega. Eu acho correto cobrar pelo direito autoral porque o compositor vive da obra que ele tem. Quer dizer, deveria viver. Eu, por exemplo, não consigo sobreviver somente da minha obra (e eu deveria). O próprio sistema de arrecadação é controverso, quiseram mudar a lei agora, dizendo que a música utilizada em cinema não deve pagar direito autoral, apesar deles recolherem. Eu acho que a gente tem que batalhar por esse direito, acho justo, é um percentual pequeno, mas que faz diferença para o compositor que tá lá, ralando. Vamos apostar nisso e também nessa “limpeza” que as pessoas estão propostas a fazer.

Música & Letra Lucina, você quer mandar uma mensagem para os leitores? o espaço está aberto para você.
Lucina Bom, a mensagem é a seguinte: se liguem nas boas músicas. Fiquem ligados além da mídia. Tentem escutar aquilo que vocês não conhecem. O Brasil está lotado de trabalhos maravilhosos que estão acontecendo em todas as partes. Todas as regiões tem quilos de compositores maravilhosos e que a gente acaba nem sabendo, por que tem que correr atrás. Então, já que é pra correr atrás, corram atrás!

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