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Escutando as letras de Zélia Duncan

Em um bate-papo delicioso, a cantora e compositora fala sobre seu novo disco, “Pré-pós-tudo-bossa-band”

Quando se ouve dizer de uma revolução musical, penso logo nessa nova e emblemática fase da música brasileira. Essa novidade não é atual, vem desde o fim dos 80 e desce contínua através dos 90 e do novo milênio. Hoje ela se firma como nova e constante, ao infinito e além. E claro, com a voz poderosa e um talento letral indispensável, Zélia Duncan está à frente, unindo-se à tropa em favor de música boa no Brasil.
À la miss simpatia da originalidade, Zélia já conquistou os tímpanos brasileiros e consegue, a cada disco, juntar mais e mais admiradores, de sua poesia cotidiana e do som de sua voz contagiante. Hoje ela está com “Pré-pós-tudo-bossa-band”, modestamente uma “viagem experimental!”
Temos o prazer de ler, em alto e bom som, a voz de Zélia Duncan!

Música e Letra Para iniciar essa “entre-letras”, vou perguntar de cara sobre o CD novo: há uma variedade maior de parcerias do que nos discos anteriores, praticamente uma música por parceiro. Você acha que compondo dessa maneira, mesclando os estilos de artistas diferenciados (Lenine, Lulu Santos, Mart’nália, Moska, Pedro Luís, Lucina, Guerra Peixe, Beto Villares, Christiaan Oyens) dá uma certa ecleticidade no disco?
Zélia Duncan Não é nada assim tão planejado, é um movimento meu na vida de diversificar, procurar o que pode ser diferente pra mim. Isso já vem rolando faz tempo, mas agora ficou mais evidente!

Música e Letra Como surgem essas parcerias? Via e-mail, como em ‘Pagu”, parceria com Rita Lee?
Zélia Duncan Normalmente eu mando a letra e normalmente são pessoas que já conheço, ou já fiz contato. Não gosto de nada forçado, sou muito preocupada com esses processos, para que eles soem sinceros eu acredito que precisem nascer assim também.

Música e Letra Dá para perceber claramente que sua arte, sua música, se sobressai nitidamente, embaçando a especulação da vida particular. É bem difícil achar um artista que está aí batalhando para mostrar seu trabalho que não use da mídia marrom para aparecer e vender. Como você lida com essa podridão da indústria cultural que acaba importando-se mais com intimidade pessoal do que a obra parida do artista?
Zélia Duncan Me deprime, me oprime, mas também é material para observações. Tudo muito inferior ao que é a música, a arte que nos interessa mesmo. Acredito que você faz seu caminho apesar de tudo e vai também aprendendo coisas e escolhendo melhor a partir dos erros inclusive.

Música e Letra Você já disse por aí que não será mais a mesma depois de ter gravado “Eu me transformo em outras”. Realmente acabou transformando-se em uma professora gentil dos ouvintes novatos, ensinando disciplinas essenciais como Itamar Assumpção, Tom Zé, Cartola, entre os muitos outros mestres do cancioneiro brasuca. A nova geração agradece! Pra você, além dessa grande experiência acadêmica, o que vai ficar tatuado para sempre em sua vida após esse disco?
Zélia Duncan Bem, você foi gentil, não me sinto ensinando nada, não sei nada o suficiente pra ensinar! Na minha vida serve demais, é alimento, é conforto e aprendizado. Aprender sim, aprendo sempre e quero estar aberta pra isso!

Música e Letra Já degustei toda e qualquer canção lançada pela sua voz por aí, mas magoa-me saber que ainda não achei “Outra Luz”, sua primeira experimentação em disco. Há planos futuros para a redescoberta deste “disco perdido”?
Zélia Duncan Pois é, não. Ficou mesmo meio raro. Minha galera do “Um Jeito Assim” sempre sabe onde achar.

Música e Letra A cena fonográfica está cada vez mais se desprendendo das grandes corporações, tornando-se, com as próprias mãos, imensas fábricas de cultura, afinal, o crivo errôneo dos empresários ceguetas é descartado. A Duncan Discos está aí para ajudar nessa batalha revolucionária contra a subtração do espaço solar, que privilegia poucos, e nem sempre bons. Como surgiu essa idéia? Era um sonho antigo, uma necessidade de mergulhar profundamente nesse apoio à cena independente? Você pretende partir por esse caminho, lançando trabalhos por seu próprio selo?
Zélia Duncan Era um desejo de algum tempo, mas não pretendo descobrir valores, não tenho essa pretensão. Por enquanto tento dar um pouco de luz a trabalhos iluminados já pelo talento, como no caso de Alzira Espíndola e Alice Ruiz. Devemos começar agora o de Lucina, minha parceira querida, mas não estou recolhendo material, nada disso, são coisas ainda muito específicas e que eu adoraria que existissem, por isso abracei.

3 Comments

  1. Alexandra

    Que delícia de entrevista!
    Muito bom saber que há quem saiba fazer perguntas inteligentes, aproveitando o potencial de uma entrevistada do porte de Zelia Duncan.
    Parabéns!!

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