Foi há pouco tempo. Estava apenas procurando uma versão mais interessante de “Oh Happy Day” em um programa de MP3 para a trilha sonora de um trabalho acadêmico. Não me contentei com o coro de freiras de Whoopi Goldberg, nem mesmo com a intensa Aretha Franklin. Mas apareceu por lá um nome desconhecido, pelo menos para o meu ingênuo e modesto conhecimento sobre o Blues internacional: Etta James. Mal sabia eu que ela era considerada a “grande mãe” do blues, respeitada e ovacionada por todo o mundo. Não duvidei disso, comprovei. A voz suave e ao mesmo tempo poderosa de Etta me conquistou. Como num coral típico em igrejas protestantes americanas, aliás, onde Jamesetta Hawkins (antes de ser batizada de Etta James por Johnny Otis, o grande jazzista) começou a cantar com apenas 14 anos, “Oh Happy Day” teve seu significado celeste triplicado em sua voz.

E não bastou a primeira impressão, não tinha me surpreendido o bastante. Minhas células auditivas agradeceram, foi um chute no estômago. Etta veio com mais, ou melhor, a minha curiosidade foi atrás de um pouco mais. Achei!

Primeiro foi “At Last”, de 1960, a estréia da jovem com cabelos “lourinha bombril”, os olhos repuxados e um sorriso inocente. Ela tira de letra soltando sua voz: “At last my love has come along/ My lonely days are over/ And life is like a song.” (“Afinal meu amor funcionou / Meus dias a sós terminaram / E vida está como uma canção”). A voz emocionada e rasgada em uma máquina do tempo que nos leva até os filmes americanos em preto e branco.

Na continuação de minhas buscas alucinadas pela música “ettística”, ainda encontrei “Life, love and blues” (1998), uma analogia, talvez, ao “sexo, drogas e rock´n roll”. Algo mais moderno, semelhantemente, um blues/pop que Etta certamente inventou com sua garganta.

O último disco ouvido foi “Blues to the Bone” (o último, lançado em 2004), puro e simples blues. O que querer mais? Uma guitarra e a voz praticamente decidem o disco. Aos quase 70 anos, Etta continua livre e solta. Pesando mais de 100 kilos, parece uma pluma cantando. Uma mulher-vinho, que com os anos vai ficando cada vez mais blues com sua pose de dama obscena. Escandalosamente demais.

Com mais de 40 discos gravados, Etta me conquistou com apenas três. Certamente tenho muito o que conhecer de Etta, mas a minha reverência à “mãe” é fato. Provada e aprovada. Levando o Blues até os ossos.

Mais sobre Etta James em: www.etta-james.com