Dono de incontáveis adjetivos, João Gilberto parte aos 88 anos

João Gilberto em apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 03/11/2008 - Foto: Beti Niemeyer
João Gilberto em apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 03/11/2008 – Foto: Beti Niemeyer

Muitos são os adjetivos para definir a vida e obra de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. O baiano de Juazeiro morreu na tarde de hoje, aos 88 anos, no Rio de Janeiro, deixando uma obra cultural que transformou o modo de se fazer música no Brasil e no mundo.

Cantando baixinho e com uma batida única ao violão, João Gilberto era o avesso das vozes da época. Com ele, foi decretado o fim da era das interpretações impostadas, dando lugar ao sublime minimalismo musical, delicado, rico. Com Chega de Saudade, seu primeiro disco de 1958, inventou-se um novo gênero, batizado de… Bossa Nova. A partir daí, a música brasileira nunca mais foi a mesma.

Junto com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Gilberto levou o Brasil para o mundo, através de episódios históricos – como a apresentação no Carnegie Hall, em 1962, e o disco Getz / Gilberto, de 1964, feito em parceria com o saxofonista Stan Getz (1927-1991).

Fora dos palcos, as histórias que envolvem João Gilberto dariam um filme, e ajudaram a cunhar a aura de mito, como a visita que fez ao apartamento dos Novos Baianos, no início dos anos 1970. Ou como dirigia seu Monza pela madrugada da Copacabana do final da década de 1980.


Cantando Brazil com S, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, em 1982

Seus shows beiravam a perfeição, e quando a coisa toda não saía como planejado em sua cabeça… ele colocava a boca no trombone. Ou no microfone. Como fez em setembro de 1999, na inauguração do Credicard Hall, em São Paulo. Ele reclamou do som, e a plateia chiou. Ele devolveu dando de língua e cravando uma máxima: “vaia de bêbado não vale”.

Nos últimos anos, com a saúde debilitada, João ficou recluso, aumentando ainda mais a fama de difícil. Mas gênio é gênio. Agora, imortal.

Cinco discos para conhecer – e entender João Gilberto:

Chega de Saudade (1958): Marco zero da Bossa Nova, o LP mais parece uma coletânea de sucessos. Além da faixa-título, o setlist trazia Bim bom, Maria ninguém, Lobo bobo, Rosa morena e Desafinado.

O amor, o sorriso e a flor (1960): o “volume 2” de João Gilberto era igualmente arrebatador: Samba de uma nota só, Corcovado, Discussão, Se é tarde me perdoa e Um abraço no Bonfá.

João Gilberto (1961): fechando a trilogia da fase Odeon, um novo lote de clássicos: O barquinho, Você e eu, Samba da minha terra, Coisa mais linda e Insensatez se destacam entre as outras faixas de um disco simplesmente impecável.

Amoroso (1977): com arranjos orquestrados por Claus Ogerman (1930-2016), é o melhor disco de João Gilberto, lançado pela Warner – que acabava de chegar ao Brasil pelas mãos do igualmente genial André Midani. Um deleite para os ouvidos: Wave, Caminhos cruzados, Besame mucho, ‘S Wonderful e a maravilhosa Estate.

João (1991): após dez anos sem gravar um disco, João Gilberto chega à era do CD com regravações de Palpite infeliz, Ave Maria no morro, Eu sambo mesmo, Una mujer e Sampa, no disco lançado pela Philips / PolyGram.

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