Poucos são os músicos que, já no disco de estreia, se tornam definitivos, daqueles em que se dispensa a espera pelo segundo álbum, considerado por alguns como a “prova de fogo”. Assim foi com a mineira Ana Carolina e seu primeiro CD homônimo, lançado no início de 1999 pela BMG (hoje Sony Music). Rapidamente suas canções, assim como as releituras de clássicos da MPB, caíram na boca do povo, alçando o posto de nova revelação do gênero daquele fim de milênio.

Pra começar, Garganta chegou às rádios e ganhou mundo em março de 1999. A canção de Totonho Vileroy entrou na trilha da novela Andando nas nuvens, da Rede Globo, e chamou atenção. Todo mundo queria saber de quem era a voz rouca que cantava “Aprendi a me virar sozinha, e se eu tô te dando linha é pra depois te abandonar”, versos que caíam como uma luva para o perfil da decidida Júlia, vivida por Débora Bloch na trama de Euclydes Marinho.

Na época, Garganta ainda não tinha um clip, tanto que, no comercial do CD de Andando nas Nuvens, Ana Carolina aparecia cantando em estúdio. Fato que já não se repetiu em sua segunda participação em trilhas de novela. No fim de 1999, Tô saindo, de autoria da própria Ana, integrou a trilha de Vila Madalena, de Walter Negrão, uma novela que não tinha abertura: todas as noites um clip de cada canção da trilha abria o folhetim, e um dos vídeos mais interessantes era o de Ana, entre Maria Bethânia, Milton Nascimento, Lulu Santos e o também estreante Maurício Manieri. No ano seguinte, outro tema foi pinçado de Ana Carolina para a TV: era Nada pra mim, de John (do Pato Fu), foi parar na temporada de 2000 de Malhação.

Mas o sucesso de Ana Carolina naquele ano não restringiu-se somente a participações na TV. Além de Garganta, Tô saindo e Nada pra mim, outras canções estouraram nas rádios, como A canção tocou na hora errada, O avesso dos ponteiros, Trancado e Armazém, também compostas por Ana. Entre as 15 canções do disco, ainda haviam as regravações de Alguém me disse, de Evaldo Gouvêa e Jair Amorim, um grande sucesso na voz de Gal Costa dez anos antes, em 1989; Tudo bem, de Lulu Santos, Retrato em Branco e Preto, de Tom Jobim e Chico Buarque, e Beatriz, de Edu Lobo e Chico Buarque. Todas interpretadas com o toque pessoal da cantora.

Ana Carolina recebeu disco de ouro, pela vendagem de mais de 160 mil cópias, e foi um dos indicados ao Grammy Latino daquele ano. É um marco na história recente da música popular brasileira, ainda mais por ser um álbum de uma multi-instrumentista: além de cantora, Ana Carolina é arranjadora, violinista, percussionista e compositora. O CD recebeu elogios vindos de várias fontes, e talvez a mais importante delas seja Chico Buarque, homenageado por Ana Carolina em seu segundo CD, Ana Rita Joana Iracema e Carolina, lançado em 2001. Segundo Ana, por se tratar de um trabalho que era voltado ao universo feminino, o título foi composto por nomes de mulher presentes em canções de Chico Buarque. Mas este já é um outro disco.

Músicas:

Tô saindo (Ana Carolina)
Alguém me disse (Evaldo Gouvêa e Jair Amorim)
Nada pra mim (John)
Trancado (Ana Carolina)
Armazém (Ana Carolina)
Garganta (Totonho Vileroy)
A canção tocou na hora errada (Ana Carolina)
Tudo bem (Lulu Santos)
Agora ou nunca (Arnaldo Antunes)
O melhor de mim (Ana Carolina)
Retrato em branco e preto (Tom Jobim e Chico Buarque)
Perder tempo com você (Alvin L.)
O avesso dos ponteiros (Ana Carolina)
Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque)
Tô caindo fora (Ana Carolina, Marilda Ladeira e Fernando Barreira)

Produzido por Nilo Romero