A reinvenção de Marina Lima

“Mas por que não nos reinventar?”. A pergunta feita por Marina Lima na canção Três, que abre seu novo CD, Lá nos Primórdios (Fullgás/EMI), pode ser uma pista para que o público decifre seu momento atual. Aos 50 anos, a cantora e compositora está mais bonita do que nunca, exalando uma serenidade claramente refletida em seu novo trabalho, o primeiro feito de forma totalmente independente.

Na tarde da última sexta-feira, dia 4, Marina, sempre antenada com o mundo à sua volta, recebeu a imprensa para um bate-papo em um lugar que é a sua cara: o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. E foi nesta entrevista coletiva que ela falou sobre o novo álbum, as novas canções e outros temas.

A essência dos primórdios
Lá nos primórdios, o álbum, nasceu no caminho inverso dos trabalhos anteriores de Marina: primeiro veio o show e, meses depois, o disco. O espetáculo, dirigido por Monique Gardenberg e apresentado em São Paulo no primeiro semestre de 2006, surgiu da concepção de duas canções da nova safra de Marina e seu irmão, Antônio Cícero. Três e Anna Bella traziam, nas estrofes, variações de uma mesma palavra: primórdio, que, para Marina, não possui qualquer relação com passagem de tempo:

“ – Lá nos primórdios poderia ser: “lá na essência”. Primórdios pra mim é essência. Não significa começo ou final”.

Marina explicou a origem das duas canções:
” – Eu tinha começado a fazer uma música chamada Anna Bella, para a artista plástica Anna Bella Geiger, que é uma senhora, uma mulher muito inteligente. Um dia fui tomar um chá na casa dela, um chá no Rio de Janeiro! Quando voltei, comecei a compôr: “Lá nos primórdios de tudo / Anna Bella me falou / Que não se pode amar sem ser amado…”. Isso é mentira, ela não falou nada disso, mas eu queria fazer uma canção sobre ela, e escrevi a primeira estrofe. Dias depois encontrei o (Antonio) Cícero, e contei pra ele: “ – olha, tenho uma música que comecei a compôr sobre Anna Bella”. Ele riu e disse: “eu também adoro a Anna Bella. Vamos fazer uma música para ela” – conta.

O tango Três, canção que abre o CD, é outra composição dos irmãos Marina e Cícero, e foi inspirada em uma viagem de Marina a Buenos Aires. A letra fala de “uma noite primordial”, e, junto com Anna Bella, formou a base que deu nome ao show:

” – Foi aí que eu percebi que a gente tinha duas músicas com essa palavra (primórdio), e pensei: “ – essa palavra tem um peso aí”. E então o show em São Paulo se chamou Primórdios, e por isso coloquei o nome no disco de Lá nos primórdios” – revela.

O novo CD de Marina Lima, "Lá nos primórdios"
O novo CD de Marina Lima, “Lá nos primórdios”

O disco traz doze faixas, sendo seis inéditas (Três, Valeu, Anna Bella, Entre as coisas, Vestidinho Vermelho e Que ainda virão), três regravações do repertório da própria Marina (Difícil, de 1985, $ Cara, de 1989, e Meus irmãos, de 1993), dois remixes (Valeu, com DJ Dolores, e Vestidinho Vermelho, com DJ Zé Pedro) e a releitura de Dura na Queda, canção que Chico Buarque compôs para Elza Soares:

” – Há muito tempo que eu venho ensaiando cantar Chico Buarque, criando coragem. Cheguei, em uma época, a ensaiar Vida, e acabei não cantando, não gravando. Quando ouvi essa música dele com a Elza Soares, eu achei uma loucura! Tem um verso que diz assim: “o sol ensolararará a estrada dela / a lua alumiará o mar / a vida é bela / o sol, estrada amarela”. Quando eu ouvi isso, eu me lembrei da Judy Garland em “O mágico de Oz”… Chico Buarque foi, de novo, na essência da alma feminina, do que as mulheres precisam, que a gente precisa dessa força do sol, pra gente poder ir, senão fica difícil, fica puxado… e é uma coisa de gênio, e eu estava esperando uma hora pra poder gravar”.

Apesar de afirmar que não gosta de releituras de seu trabalho – como a que aconteceu no disco anterior, Acústico MTV, de 2003 – Marina explica que as três canções (Difícil, $Cara e Meus Irmãos) entraram no disco porque fizeram parte do show, e também porque ela queria cantá-las com novos arranjos, e fala especialmente sobre $Cara:

” – É difícil viver no Brasil, né?! parece que jamais foi tão escuro, que o Brasil é sempre o país do futuro. Era pertinente cantá-la agora”.

Independente sim, com ajuda da tecnologia
Há muito tempo flertando com a música midi, feita em computadores, Marina Lima revela como o disco, produzido por ela e Renato Alscher, foi ganhando formas:

” – Os estúdios são carérrimos, as orquestras também. O mundo digital, informático, diminuiu tudo. Pra gravar um disco hoje, você não precisa mais construí-lo em estúdio. Eu gravei esse disco na minha casa (…) por isso que a questão da informática na música eletrônica me interessa. Ela tornou tudo muito mais prático pra mim. É bom explicar isso porque quando se fala em música eletrônica, as pessoas logo pensam que você está apoiando um estilo musical, uma linha musical”.

Seguindo a tendência de diversos artistas em um mercado em crise, este é o primeiro CD de Marina feito totalmente de forma independente, com distribuição da EMI:
” – Eu era a dona do negócio. Eu não era contratada de uma gravadora. O trabalho era meu, o dinheiro era do meu bolso, então eu na verdade é que ia dizer se valia a pena mixar mais. Não tinha a preocupação de “temos ou não temos mais dinheiro”: era eu, comigo. Foi uma experiência incrível pra mim. Eu estou feliz porque a EMI se interessou pelo trabalho, e quis ser minha parceira na distribuição, e quis também investir no marketing”.

“O Rio tá esvaziado”
A cantora, que durante 14 anos morou numa casa na Lagoa e acaba de mudar-se para Ipanema, relembrou, durante a entrevista, as apresentações que fez nas Lonas Culturais da cidade, nos mesmos moldes dos shows que apresentou em São Paulo no Baretto. Marina também declarou que gostaria de apresentar o show Primórdios em um espaço democrático, como o Canecão, “que é um lugar com a cara do Rio”. Mas ainda enfrenta um problema: a falta de patrocínio.

Com a proximidade das eleições, Marina alertou sobre o perigo da manipulação do povo pelos governantes, que teimam em ligar política com religião, e disse que a cidade sofre de um “esvaziamento cultural”, ao contrário de São Paulo:

” – Moro aqui, tenho amigos aqui e muitas coisas me estimulam aqui. Mas a verdade é que o Rio esta virando um grande balneário. A gente tem vocação para ser mais que isso. O Rio tá esvaziado, mas o Brasil é nosso”.