Aspásia Camargo: ‘Rita Lee é carioca’

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Em entrevista exclusiva, a vereadora Aspásia Camargo fala sobre Rita Lee, que receberá, de suas mãos, o título de cidadã carioca

Aspásia Camargo

Na próxima sexta-feira, dia 25, a cantora e compositora Rita Lee receberá, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, o título de Cidadã Honorária do município do Rio de Janeiro. E quem nos conta sobre esta premiação é a vereadora Aspásia Camargo (PV-RJ), autora do projeto, que gentilmente recebeu o blog em seu gabinete para falar sobre a homenagem e a influência da cantora e compositora paulistana em sua vida.

Vereadora, como surgiu o projeto de homenagear Rita Lee?

Surgiu porque a Rita Lee esteve nos brindando, aqui no Rio de Janeiro, com seu show no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, que é o padroeiro da cidade. Foi um show magnífico, muito lindo, e ela, nas suas declarações, dizia que amava o Rio de Janeiro, mesmo com a água suja de cocô (risos), dizia que amava Copacabana, que queria morar em Copacabana. Então, quando eu vi aquela declaração de amor tão linda, num momento em que o Rio está numa situação tão difícil, penosa e tudo, eu realmente fiquei apaixonada (e eu já era apaixonada por ela mesmo), e aí eu falei: ” – Então eu vou convidá-la. Eu vou dar esse título de cidadã carioca que ela quer, que ela almeja”.
Nós entramos em contato com a assessoria dela, e a resposta custou a vir. Eu achei que ela estava meio reticente, mas é porque ela estava descansando, fora de São Paulo. Eu enviei uma mensagem pessoal a ela – e não foi uma coisa de gabinete, foi uma coisa minha, do meu coração mesmo – dizendo que ela já era carioca, pelo seu temperamento crítico, ferino, gaiato… ela já nasceu carioca! Rita Lee é carioca! O que eu queria fazer era apenas dar a ela este título, que ela já possuía, na verdade. E dizendo também que eu a amava profundamente, que ela é uma mulher extraordinária, que realmente fez uma revolução no século XX que muitos ainda estão esperando aí para o século XXI, que ela se antecipou à sua época, e que ela era única, como compositora e como intérprete, e que nunca haveria nada igual.
Rita escreveu uma carta muito carinhosa, e nós ficando trocando e-mails… ela se chamou de “Ritz”, e eu me chamei de “Aspz” (risos), e disse que gostava muito de mim, que tinha o maior prazer e o orgulho em receber um título meu, e eu também disse que queria muito valorizar também o lado militante dela, em defesa da mata atlântica, dos animais, e que era muito bonito esse lado ambientalista dela, e que pra mim também era importante, pelo Partido Verde, em todos os sentidos, não apenas em defesa do ambientalismo que ela faz muito bem, mas também na maneira inovadora que ela vê o futuro através das letras de suas músicas, pela sua audácia feminina. Enfim: pelo que ela representa. São pouquíssimas as mulheres que são, ao mesmo tempo, grandes intérpretes e grandes compositoras, e nós temos que valorizá-las. E ela é uma show-woman extraordinária. Sempre, sempre Rita Lee!

Além da atitude, também.

Além da atitude, claro, e ela acha que a parceria com Roberto de Carvalho foi muito importante pra ela, porque ele é carioca e tem essa leveza que ela admira nos cariocas, e que ele abrandou a sua música e o seu modo de ser, na convivência com esse carioca que ela tanto ama. E portanto nós estamos estendendo essa homenagem a ele, ao Roberto, que é carioca da gema e que, segundo ela, trouxe todas as alegrias da Bossa Nova, do Beco das Garrafas… a “Bossa ‘n’ roll” é o casamento com Roberto, que mais uma vez demonstra como ela é pioneira, que ela é uma líder natural. Como neste trabalho dela, o “Balacobaco” (álbum lançado em 2003), que eu gosto muito, que é uma delícia… e é inovadora também, do “Amor e sexo”, que é uma coisa muito inspirada no (Arnaldo) Jabor, mas tem uma marca muito forte dela também.

E como foi o encontro de vocês duas, aqui no Rio de Janeiro?

Depois da nossa troca de e-mails, em que ela foi muito carinhosa comigo, e eu disse a ela tudo o que eu achava dela (e eu acho que ela gostou). Então nós marcamos um encontro no (Hotel) Sofitel. Aí eu vejo aquela mulher extraordinária, aquele cabelo vermelho que todo mundo conhece, aquele despojamento, ela estava linda, com uma roupa muito bonita, uma calça comprida, uma blusa muito bonita… e conversamos sobre a vida dela, e eu perguntei sobre coisas que eu queria saber, e ela disse coisas deliciosas, como por exemplo que “ela é uma ex-hippie comunista” (risos). Coisas de Rita.
E ela relembrou outras experiências, e foi tudo muito prazeroso. Nós tiramos lindas fotos com Copacabana ao fundo – e ela tem uma fixação por Copacabana que é muito justificável. Então ela disse que é insaciável, e que, além da cidadania, quer também sair em uma escola de samba, e que quer aprender a sambar. E aí eu sugeri o Carlinhos de Jesus, que é muito bom.

E ela topou?

Ela topou. Agora, ela tem que vir pro Rio um pouquinho, né?!, ficar aqui um pouquinho. Ela gosta muito do mato, e tem uma casa no mato, segundo ela.

Em 2004, na época da turnê do CD “Balacobaco”, Rita Lee deu uma declaração aqui no Canecão, dizendo, entre outras coisas, que estava cansada de São Paulo e procurava apartamento em Copacabana, e os paulistas se ofenderam a ponto dela colocar, em seu site oficial, uma carta explicando que era tudo uma brincadeira e que, sempre que ela vai a outro estado, diz a mesma coisa. A senhora não tem medo que esta homenagem provoque novamente a mesma reação?

Não, porque nós já combinamos o que a gente quer: nós queremos a aliança Rio – São Paulo. Essa história de briguinha entre Rio e São Paulo é coisa do século XX, do século XIX, quando houve problemas com a proclamação da República, há mais de cem anos atrás. Eu, por exemplo, adoro São Paulo. Nunca passei nenhum momento da minha vida que não fosse prazeroso em São Paulo. Adoro os paulistas, acho o povo gentilíssimo, inteligente, interessante. Ela é a mensageira dessas duas raças, de polos diferentes. Acho que essa generosidade que ela tem com o Rio, eu gostaria de ter também com São Paulo. Então a gente tem essa ponte de aproximação. Ela gosta de ser vanguarda, e eu também. Então eu estou muito feliz que o Rio possa ter esta “madrinha”, esta “fada-bruxinha”.

A senhora e Rita Lee têm trajetórias diferentes, e elas se cruzam quando o assunto é a militância, seja na política ou na cultura. Sendo de uma mesma geração, como a senhora vê esse perfil da mulher que, desde os anos 1960, segue brigando pelos seus direitos?

Eu tive muita afinidade com o que ela disse, engraçado… muita, muita mesmo. A família que ela teve foi muito parecida com a que eu tive. A mãe, tradicional, exigindo que a filha cumprisse as tradições, os códigos, costumes etc, e também um ambiente de liberdade que eu senti que ela teve, de irreverência que ela teve, e que no fundo tornou, digamos assim, para pessoas como ela e como eu, dessa faixa etária, o feminismo um pouco inútil, um pouco frio, sem sentido.
Nós não tínhamos um clima de ruptura dentro de casa: nós tínhamos um clima de familiaridade, de família bem resolvida, simpática. Então a revolução foi cultural mesmo. E eu acho que essa revolução cultural passou também por uma capacidade de realização pessoal – cada um no seu campo – mas que teve também um toque de ousadia. Porque ela sempre foi a primeira a fazer uma série de coisas, eu também. Eu fui a primeira mulher a ser presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e pesquisas em Ciências Sociais, eu fui a primeira da minha geração a ter doutorado, e ela também esteve sempre na vanguarda. Nós não precisamos do feminismo pra fazer isso, mas nós fizemos sim uma revolução feminina.
Também vejo outras aproximações com ela, por exemplo: ela é muito ligada à família, cultiva muito a família, filhos, netos, o casamento, e isso também é atípico: nossa geração foi muito atormentada, com muitos conflitos de gênero. E nós não vivemos esse conflito de gênero: nós vivemos uma coisa de desacato. E ela, cantora, uma liderança da música, a música tem uma capacidade de se espalhar que é uma coisa impressionante. Os músicos tem um papel na sociedade contemporânea que é único, porque eles lideram processos, derrubam tabus, inovam comportamentos. E ela fez tudo isso.

E o que está programado para a cerimônia, que acontecerá no próximo dia 25 de maio na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro?

Para esta cerimônia está programada, como em todas as cerimônias, uma mesa em que algumas pessoas comparecem, logicamente o Roberto e alguns convidados especiais, além de outras personalidades que estamos convidando.

Eu gostaria que a senhora falasse sobre a influência das músicas de Rita Lee em sua vida, ou contasse uma história onde ela esteja presente como fundo musical:

Caramba… (risos). Não sei se eu tenho, assim, uma história. Acho que toda a minha geração viveu os dois grandes lançamentos dela, que foi o “Mania de você” (1979) e o “Lança perfume” (1980) como uma coisa inesquecível. Porque era romântico e, ao mesmo tempo, abusado. Todo mundo que estava apaixonado, se apaixonando ou querendo se apaixonar, via essas músicas como um convite, um estímulo. Os amores aconteciam sob o som de Rita Lee, e eu vivi os meus! Havia muito ritmo e muita poesia também.
O “Rock pauleira” é conflituoso, irritado, raivoso, mas essa mistura que ela fez de música romântica e desabusada, com toques de samba, o que ela bem entendia e bem queria, aquilo era realmente um convite à sensualidade, ao erotismo. Coisa também muito rara, porque o erotismo é uma coisa muito delicada, porque as pessoas podem ser muito grosseiras quando elas tentam trabalhar com isso, e a gente vê, toda hora, coisas que desagradam, coisas que ferem, e ela, ao contrário: ela soube fazer do erotismo uma coisa muito leve e muito séria, e um convite mesmo. Era irresistível! Era isso que acontecia com a gente. Olha, é perigoso ouvir a Rita Lee em um certo clima, porque vai acontecer!

Pra terminar, qual a lembrança mais antiga que vêm a sua mente sobre Rita Lee?

Ah, Mutantes. Aqueles festivais… foi lá. Ela apareceu ali, assanhada, loirinha, espevitada, louquinha… ela disse que “ela era a louca do grupo”, ela que fazia as loucuras todas, a programar a loucura. Eu acho que ela tirou os Mutantes daquele compasso natural, ela desconstruiu um pouco os Mutantes. Eles gostaram, mas depois não aguentaram. E ela foi mais forte que eles.

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