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Gilberto Gil participa da abertura da edição 2007 do Loucos por Música

Gilberto Gil - Foto: Remi BousseauNa noite desta terça-feira, dia 22, o Vivo Rio recebeu o show de abertura da edição 2007 do Projeto Loucos por Música, que há dois anos promove encontros de grandes nomes da MPB com artistas plásticos, em prol da arrecadação de fundos para o tratamento de pessoas com distúrbios mentais no país.

O evento, que juntou o reggae do Cidade Negra com a pluralidade musical de Zélia Duncan, teve abertura do grupo Harmonia Enlouquece (com participação especial de Jandira Feghali na bateria) e discurso de abertura do Ministro da Cultura Giberto Gil.

Gil ressaltou a importância do projeto como inclusão social e, junto com Hamilton de Jesus – componente do Harmonia Enlouquece, relembrou Raul Seixas em Maluco beleza.

Leia abaixo o discurso de Gilberto Gil:


“Boa noite a todos,

Há 60 anos, o prédio do então Ministério da Educação e Cultura recebia a primeira exposição externa das obras dos pacientes da Seção de Terapia Ocupacional e Reabilitação do Centro Psiquiátrico Pedro II. Talvez só mesmo aquele edifício — hoje Palácio Gustavo Capanema, sede do Ministério da Cultura no Rio de Janeiro —, com a ousadia e a poesia de uma arquitetura nova, num país que emergia de um longo período autoritário, pudesse sediar a primeira mostra, a primeira demonstração, os primeiros resultados de uma revolução em curso.

Hoje, aqui neste palco, os artistas se reúnem para cantar o futuro de um dos segmentos mais incompreendidos e da nossa sociedade, que são os pacientes das instituições de saúde mental. E, quando apontamos e abraçamos o futuro — um futuro de cidadania, de vida plena, de inclusão e de respeito —, ecoa a voz de uma mulher. Estamos reunidos aqui sob a inspiração de Nise da Silveira. A teimosa, aguerrida, obstinada, a revolucionária Nise da Silveira.

Hoje, a idéia de uma terapêutica sem muros não é um sonho, é uma possibilidade concreta. É para assegurar a materialização dessa possibilidade que movimentos como o “Loucos por Música” se organizam — não por acaso, o “Loucos por Música” teve sua primeira edição, em 2005, destinada a apoiar a Casa das Palmeiras, instituição fundada por Nise, pioneira na aplicação da idéia do externato para o tratamento dos transtornos mentais.

O Ministério da Cultura tem muita alegria em poder contribuir para esse projeto, que visa a apoiar iniciativas de inclusão social dos usuários dos serviços de saúde mental. Gostaria de reiterar todo o meu compromisso com a causa e reafirmar a minha crença de que, junto com as famílias e os ambientes sociais de cada indivíduo, é possível reorganizar o atendimento dado às pessoas com distúrbios mentais no país, assim como é possível criar reais possibilidades de cura e qualificar o tratamento e o apoio nesses momentos tão difíceis.

A cronificação dos distúrbios mentais produzida pelo atendimento nos manicômios é um fato real que escraviza os portadores e os expõem a condições desumanas. Nesse sentido, é de responsabilidade do Estado o desenvolvimento de uma política de saúde mental efetiva e de qualidade, bem como a assistência e a promoção de ações de saúde aos portadores de transtornos mentais, com a devida participação da sociedade e da família. A internação, em qualquer de suas modalidades, só deve ser indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes, já o tratamento dispensado deve ter como objetivo permanente a reinserção social do paciente em seu meio.

A Doutora Nise dizia que sua palavra favorita era “liberdade”. Como ela, eu também gosto muito do som dessa palavra, gosto das infinitas possibilidades que esta palavra inspira. Gosto de pensar na beleza que Nise ajudou a emergir nas telas, nas esculturas, nas obras de seus pacientes. Mas gosto, principalmente, da perspectiva de liberdade que ela começou a desenhar para os usuários dos serviços de saúde mental ainda na década de 40. Segundo o sociólogo e antropólogo francês, um dos maiores pensadores da atualidade, Edgar Morin, “civilizar é solidarizar a Terra, transformar o ser humano em humanidade”. Sem dúvida, Nise da Silveira foi um exemplo dessa passagem de Homem à Humanidade e, assim como ela, espero que este evento seja mais um passo para esta transformação no Brasil. Hoje, estamos aqui reunidos para o prosseguimento deste trabalho.

Muito obrigado!”

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