Ney Matogrosso faz campanha contra a Hanseníase no Metrô do Rio de Janeiro

Ney Matogrosso - Foto: Fábio Vizzoni

Porta-voz da luta contra a Hanseníase no Brasil, Ney Matogrosso marcou presença durante a manhã de ontem na estação Largo da Carioca, no metrô do Rio de Janeiro. O cantor, que há sete anos é voluntário do MORHAN – Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, participou da panfletagem junto aos passageiros, acompanhado por Sérgio Côrtes, Secretário de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Rosa Castália, Coordenadora Nacional do Programa de Eliminação da Hanseníase, e Artur Custódio, Coordenador Nacional do MORHAN e membro da Mesa da Diretoria do CNS – Conselho Nacional de Saúde.

Todos os anos, sempre no último domingo do mês de janeiro, é comemorado o Dia Mundial da Luta contra a Hanseníase, doença reconhecida como um problema de saúde pública. A meta para eliminação deste quadro está na pauta do governo federal, com prazo máximo definido para 2010. Em continuação ao trabalho do MORHAN, o Metrô Rio, que é parceiro do movimento, abrigou a equipe, que fez panfletagens durante o embarque e desembarque de passageiros, e esclareceu dúvidas no stand localizado próximo a um dos acessos da estação.

Em entrevista coletiva, Ney Matogrosso, atuante voluntário, ressaltou a importância de ações como a do MORHAN, que busca transmitir às pessoas informações sobre a doença e, principalmente, acabar com o preconceito:
“A informação clareia, esclarece. É isso que eu acho importante: esclarecer, clarear o pensamento, oferecer dados reais para as pessoas saberem. É uma doença que é vista como um monstro de sete cabeças que, na verdade, não precisa ser mais vista dessa maneira. É uma doença que tem tratamento gratuito, tem cura. São informações importantes”.

Ney Matogrosso também explicou o motivo que o levou a abraçar a causa:
“Eu, que me considero uma pessoa razoavelmente bem informada, achava que essa doença não existia mais no Brasil. Quando o Artur (Custódio) entrou em contato comigo, e eu comecei a conversar com ele, eu vi que existia muita informação muito útil, mas que não chegava a lugar nenhum, ninguém tinha essa informação. Então eu estou ajudando a levar essa informação (…) na verdade, o que a gente acha que é preciso é uma campanha nacional permanente. Porque não adianta fazer uma campanha de 15 dias, botar no ar… tem que ser uma coisa permanente: se realmente queremos acabar com essa doença – que nós não precisamos conviver com ela – . Se o Brasil quiser acabar com essa doença (que nós não precisamos conviver com ela), tem que fazer uma campanha permanente, no Brasil inteiro. Porque, da América Latina, só o Brasil a tem.”

Perguntado se a Hanseníase também teria uma relação direta com a falta de itens básicos, como saneamento, Ney Matogrosso declarou:
“Claro que é uma doença que tem um relacionamento direto com higiene, com o meio como as pessoas vivem. A gente sabe que tem uma população enorme brasileira, quase metade da população, vivendo em situações vergonhosas. Então passa por aí, mas também é muito a questão principal da informação. Nós sabemos de um alto índice de crianças já com sequelas. Crianças com sequelas significa o seguinte: crianças que estão convivendo com adultos que não se tratam. Agora, o adulto que tem a doença, que souber que a primeira dose do remédio que ele toma ele não contamina mais, isso também é importantíssimo, para evitar que essas crianças, além de serem contaminadas, já estejam com sequelas, e são sequelas irreversíveis”.

Para o Música & Letra, Ney Matogrosso respondeu, com exclusividade, se já percebe ou não alguma diferença na forma que a sociedade em geral vê a Hanseníase, após a sua participação na campanha:
“Não. Eu noto que, no governo Lula, houve realmente uma aproximação e uma olhada para esse assunto com mais clareza, que até então ignoravam. Eu acho que isso tudo tem que partir do governo: não adianta a gente ficar aqui fazendo campanha, campanha estadual, campanha de… isso não resolve! Tem que ser o governo empenhado em acabar com a doença no país. Quer dizer, houve uma pequena melhora com relação a esse aspecto”.

Segundo Artur Custódio, o Brasil possui cerca de 40.000 pessoas portadoras de Hanseníase. Ele ressaltou a importância do cantor como voluntário:
“A entrada do Ney Matogrosso foi fundamental para o movimento, pois trouxe um novo destaque para a questão da Hanseníase, que é tida como uma doença de população pobre. A entrada do Ney, no ano de 2000, começa a destacar a questão da Hanseníase, e depois dele outros artistas vieram também, fazendo com que outra categoria da sociedade, preocupada com a cultura – e na cultura existe um preconceito muito forte com a doença – venha para o movimento e comece a discutir, chamando atenção para a presença desta doença no país” – conta.

Rosa Castália falou sobre o atual quadro do Brasil em relação à luta contra a doença:
“A gente fala em eliminação como problema de saúde pública, que significa ter menos de um caso em cada grupo de 10.000 habitantes, ou seja, ter níveis muito baixos. Com isso a transmissão fica mais dificultada, por que você vai ter menos fontes de infecção. No início dos anos 90, o Brasil assinou um pacto apadrinhado pela Organização Mundial de saúde com mais de 100 países, que dizia que esses países deviam eliminar a doença enquanto problema de saúde pública, através da estratégia de oferecer tratamento e diagnóstico aos casos, já que a gente não tem vacina. Ao longo desse tempo, só existem cinco países que ainda não eliminaram, e o Brasil está entre eles. Por muito tempo essa doença foi muito negligenciada pelos governos e pelos próprios grupos profissionais de saúde. Então, a partir de quatro anos atrás, o governo assumiu a Hanseníase como prioridade de governo, propondo que estados e municípios a incluam entre suas prioridades, estimulando a ampliação da cobertura de serviços. Hoje temos cerca de 14.000 unidades fazendo diagnóstico e tratamento, e há dois anos eram 8.000, monitorando onde estão acontecendo mais casos”.

Sobre a participação de Ney no movimento, Rosa compartilha da mesma opinião de Artur Custódio:
“Eu acompanhei a entrada do Ney Matogrosso no movimento, e posso dizer que o que aconteceu foi realmente impactante e extremamente importante. A presença dele enquanto voluntário do MORHAN e defensor da causa deu uma visibilidade a questão que não existia. Depois do Ney Matogrosso, as pessoas passaram a se interessar pelo assunto, à medida que as pessoas veem o Ney dizer que a doença tem cura, elas procuram saber sinais, sintomas, postos de saúde. Ele é uma figura de grande credibilidade e carisma fantástico, e a voz dele é muito mais ouvida. Foi uma mudança no perfil, mobilizou as pessoas e as autoridades a colocar o tema na agenda. O Presidente da República recebe o Ney Matogrosso pra falar de Hanseníase, então todas as outras autoridades se mobilizam. E ele é bastante rígido, ele vai lá e cobra, faz o papel dele de cidadão” – afirma.

Ney Matogrosso - Foto: Fábio Vizzoni
Rosa Castália, Ney Matogrosso, Sergio Cortes e Artur Custódio

Já o Secretário Estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, complementou a importância da participação do cantor, em ações deste porte:
“Eu acho que qualquer artista e principalmente o Ney, que é uma pessoa de conhecimento nacional e internacional, mostra o compromisso da classe artística com relação a ações de cidadania, que podem reverter um quadro que ainda é ruim em relação à Hanseníase. Não só o Ney, e todo e qualquer artista que participe dos nossos programas e nossos eventos, nós agradecemos de coração. E é muito mais fácil o Ney transmitir uma mensagem do que eu: a população vai ouvir muito melhor o Ney do que um secretário de saúde engravatado, então eu acho fundamental a participação dos artistas”.

Criado em junho de 1981, o MORHAN completou 25 anos de luta contra a doença e o preconceito no país. É uma entidade sem fins lucrativos, com sede no Rio de Janeiro e presente em vários outros estados brasileiros, com aproximadamente 100 núcleos. Além de Ney Matogrosso, outros artistas participam como voluntários, entre eles Ney Latorraca, Solange Couto, Nelson Freitas, Lino Vilaventura, Siron Franco, Targino Gondim, Karla Karenina, Elke Maravilha, Priscila Fantin e Patrícia Pillar.

Ouça um trecho da entrevista com Ney Matogrosso:

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