Depois de um longo período de ausência, o cantor e compositor Ritchie está de volta as paradas de sucesso com a canção Lágrimas Demais, tema dos personagens de Miguel Falabella e Vera Fischer na novela “Agora é que são elas”. A canção faz parte de seu novo CD, Autofidelidade, que chega às lojas via DeckDisc e põe fim em quase treze anos de silêncio fonográfico.

Quem tem mais de 20 anos de idade certamente se lembra dos muitos sucessos que este inglês apaixonado pelo Brasil acumulou durante as décadas de 80 e 90. Em entrevista, Ritchie falou sobre este novo álbum e momentos de sua vida e carreira:

“Autofidelidade” marca seu retorno ao disco, após um longo período de ausência. O que aconteceu?
RITCHIE – Em 1994, decidi tirar um ano para estudar programação e reavaliar minha carreira. Acabei descobrindo a internet, javascript e me dediquei a isso em tempo quase integral a partir de 1996. Trabalhei na sonorização dos sites de Lulu Santos, Carlos Drummond de Andrade, Yahoo Digital, Beatnik, Keyfax Software, Usina do Som e outros além do meu próprio site: www.ritchie.com.br.

Assim como você, outros artistas lançaram seus últimos trabalhos através de pequenas gravadoras e selos independentes, fazendo discos conforme seus desejos e não como o das gravadoras, alcançando bons resultados. Isto é a prova de que é possível manter-se no mercado, mesmo com a pressão das multinacionais?
RITCHIE – Espero que sim. Acho que os pequenos selos têm maior jogo de cintura do que as grandes gravadoras em tempos de crise. Mas ainda não estamos nadando em águas calmas… os peixes graúdos têm apetite voraz.

O que você acha da distribuição de música pela internet, através da troca de arquivos MP3?
RITCHIE – Acho a internet uma formidável ferramenta de comunicação para um artista em ascensão. A possibilidade de ter um acesso direto ao público sem a intervenção das gravadoras faz com que surgem novos valores estéticas na música que não dependem do sucesso comercial. É bom para a música alternativa e para arte em geral.

Em 2003, “Voo de Coração”, seu primeiro disco solo, completa 20 anos. O que mudou do Ritchie de 1983 para o Ritchie de hoje?
RITCHIE – Hoje sou mais maduro/menos ingênuo, mais tranqüilo/menos atolado. Em 1983 eu usava o teclado, hoje eu componho quase exclusivamente no violão. Em 1983 eu era o Ritchie, hoje sou “aquele cantor do Menina Veneno” (risos).

Ritchie em 1983, na época do lançamento do LP "Voo de Coração"
Ritchie em 1983, na época do lançamento do LP “Voo de Coração”

Você vive no Brasil há cerca de três décadas e pôde acompanhar os altos e baixos de nosso país. Como você vê a vitória de Luís Inácio Lula da Silva?
Ritchie – Estou feliz com o presidente. Acho Lula uma pessoa que tem o bem do Brasil no seu coração. Não é o salvador da pátria, mas está empenhado em botar o Brasil de pé com dignidade. O povo precisava de um líder que falava a linguagem dele sem maneirismos de elite. Acho que Lula é o caminho certo na hora certa.

E sendo um cidadão inglês, apesar de radicado no Brasil, como você vê a guerra ao Iraque e, principalmente, a união entre Tony Blair e George Bush?
RITCHIE – Acho deplorável que a guerra foi declarada à revelia dos desejos da grande maioria dos povos e sem o aval do Conselho de Segurança da ONU. Tony Blair vai ser o bode expiatório da história se ficar definitivamente comprovado que não havia armas de destruição em massa no Iraque. Bem feito! Quem mandou mentir para o povo inglês?

Que tipo de música você gosta de ouvir ? Você tem alguma preferência por um artista, banda ou estilo? O que tem despertado a sua atenção, nos últimos tempos, no mundo da música?
RITCHIE – Los Hermanos, Vulgue Tostoi, David Gray, Aimee Mann, George Harrison, Elvis Costello, Prefab Sprout, Pulp, Penelope, Peter Gabriel, Nine Inch Nails, Red Hot Chilli Peppers.

Além de cantor, compositor, professor de inglês etc, você também é webdesigner, e o computador é um de seus hobbies. Você usa Macintosh ou PC? A inspiração para o desenvolvimento de um site, assim como para compôr, também surge quando menos se espera?
RITCHIE – Sou Macmaníaco total. Evolui direto do ATARI ST para o Mac. Nem sei operar um PC. Desenvolvi meu site intuitivamente, num momento em que eu nem dominava bem os recursos de computação gráfica. Gosto mesmo é de programar Javascript. Me relaxa. É um pouco como o processo de compor uma canção, embora mais analítico.

Em 1993, você, Cláudio Zoli, Vinícius Cantuária, Mú, Dadi e Billi Forghieri formaram o “Tigres de Bengala”, uma banda com uma proposta musical interessante, que implacou sucessos como “Elefante Branco” e “Agora ou jamais”. Porque a banda se desfez? Aquele era apenas um projeto independente, para lançar somente um disco?
RITCHIE – Era um projeto só de um disco. Ainda bem: eram muitos estilos divergentes para se gerenciar. Quando o disco ficou do jeito que nós o queríamos, a gravadora interferiu e mudou a projeto radicalmente aos 44 minutos do segundo tempo. Foi frustrante, mas o disco é bonito assim mesmo. Pena que a gravadora tirou tão logo de catálogo. Quem procura hoje não acha. Uma pena.

Você sempre teve canções suas incluídas em trilhas sonoras de novelas. Você acha que isso ajuda a vender o seu disco, a popularizar o seu trabalho, trazendo-o para mais próximo do público?
RITCHIE – Acho que num país que vê tanta novela como o Brasil, estar na trilha significa uma exposição invejável na mídia. O lado negativo é que a música acaba se confundindo com a novela no imaginário do povo. Vira “aquela da novela”.
Bom, não posso reclamar! foram muitas músicas: Menina Veneno (Pão pão beijo beijo, 1983); Casanova (Champagne, 1983); Só pra o Vento (A gata comeu, 1985); Coisas do coração (Roque Santeiro, 1985); Transas (Roda de Fogo, 1986); A Sombra da partida (Vale Tudo, 1988); Mais Você (Rainha da sucata, 1990); Mercy Street (O Sorriso do Lagarto, 1991); Um homem em volta do mundo (Cara e Coroa, 1995) e Lágrimas demais (Agora é que são elas, 2003).