Entrevista: Todas as mulheres em Rita Lee

Rita Lee - Foto: Fábio VizzoniMaio é, tradicionalmente, o mês das noivas e das mães. Momento de transformação e realização para boa parte das mulheres do Brasil e do mundo, seja com os casamentos que se iniciam, seja com seus filhos, netos e bisnetos. Certamente o período perfeito para o novo lançamento de Rita Lee: prestes a completar 60 anos de vida e 40 de carreira, a cantora e compositora – símbolo da inteligência e irreverência feminina, casada, mãe de três filhos e avó da pequena Izabella – reuniu histórias de vida e momentos de sua carreira em “Biograffiti”, box com três DVDs que marca a sua estreia na Biscoito Fino.

Por e-mail, Rita Lee falou com Música & Letra sobre este momento especial de sua vida, marcado com homenagens e novas histórias a serem contadas.

Música & Letra | “Biograffiti” faz um apanhado de seus grandes sucessos, traz momentos raros (como o encontro com João Gilberto em “Joujoux et Balagandans”, de 1980) e apresenta três canções inéditas – “Tão”, “Dinheiro” e “Eu sou do tempo”. Como foi reunir quatro décadas em três discos?
Rita Lee | Realmente as 4 décadas da minha vida musical não couberam em apenas 3 dvds e nem esta era a intenção inicial, portanto a novela continua, inclusive os próximos capítulos já estão sendo gravados.

Música & Letra | Chico Buarque narrou sua própria história em 12 DVD’s, dirigidos pelo mesmo Roberto de Oliveira. Você em três. Ficou muita coisa de fora ou mais histórias virão por aí no futuro?
Rita Lee | Putz, acho que já respondi acima…

Música & Letra | Com o lançamento do box você estreia na Biscoito Fino, uma gravadora que, gradativamente, vem se assemelhando à Philips dos anos 70, por abrigar os grandes nomes da música brasileira (e você também estava lá!). Como está sendo a acolhida nesta nova casa?
Rita Lee| Meu, os biscoitenses são gente fina e respeitosa, tem um “quê” de gravadora independente bastante bem vindo no meio de tantas majors viciadas na falta de visão do mercado musical e hábitos um tanto ultrapassados. Estou adorando trabalhar com eles, é um casamento que promete muitos filhos.

Música & Letra | Seus “compadres” Caetano e Gil estão, aos poucos, diminuindo a quantidade de apresentações ao vivo, pisando no freio… Rita, o povo quer saber: você realmente vai parar de fazer shows?
Rita Lee | Pois é, seguindo o exemplo dos meus mestres, também pretendo trocar as subidas ao palco por novas aventuras e virar bicho do mato, para plantar hortinhas, aprender a cozinhar em fogão a lenha, fazer compotas de frutas, escrever livros, aprender chinês… isto não significa que vou deixar de gravar discos e, se a grana for compensadora, até faço um showzinho aqui e ali.

Música & Letra | Em entrevista a uma rádio carioca em 1979 (no lançamento do LP “Mania de você”), você e Roberto diziam que o pequeno Beto – então com dois anos de idade – levava jeito para a música, cantava todos os sucessos etc. A suspeita se confirmou. E com Izabella? ela já dá sinais de que pode vir a trilhar o mesmo caminho dos pais e avós?
Rita Lee | Ziza Lee por enquanto tem demonstrado mais talento para a dança, ela faz umas piruetas que não dá para acreditar. As vezes penso que, na vida anterior, minha neta não teria se chamado Isadora Duncan!

Música & Letra | Todo artista que faz muito sucesso, rapidamente vira alvo de intrigas e fofocas. E com você não foi diferente – isto em um tempo onde os “paparazzi” não eram moda no Brasil e no mundo. Inventaram mil histórias, disseram que você tinha anorexia, leucemia… esta imprensa marrom te deu sossego, Rita?
Rita Lee | Talvez a imprensa marrom já tenha se amarelado um pouco e desistido de fazer o meu velório antes do meu cadáver aparecer.

Música & Letra | Vejo muitos jornalistas por aí sempre perguntando a mesma coisa: “que momento de sua carreira você gostaria de esquecer?”. Então, quero propor o inverso: Rita, qual momento desses quarenta anos você considera inesquecível, o mais feliz, o mais vibrante?
Rita Lee| Foram vários, mas escolho a época da turnê “Lança perfume”.

Música & Letra | Você já passou pela TV e pelo cinema, e sempre afirmou seu carinho pela dramaturgia – inclusive como consumidora compulsiva de novelas. Encarnou Raul, Bellatrix, Lita Ree, Gungun, Mabel, Regina Célia, Aníbal… qual personagem você ainda gostaria de interpretar?
Rita Lee | Imagino que eu faria muito bem o papel da filha de Dercy Gonçalves.

Rita Lee - Foto: Fábio VizzoniMúsica & Letra | No próximo dia 25 você receberá o título de “Cidadã Honorária do município do Rio de Janeiro”. O que a “paulista branquela, sofredora corintiana” está achando disso e, consequentemente, aguardando para esta homenagem?
Rita Lee | Meu, vou receber o Oscar das cidadanias que é o da cidadania carioca, é uma honra pra lá de Salvador Dali, certamente será um dia inesquecível na minha vida.

Música & Letra | Neste 2007 de tantas novidades e outras homenagens (como a coleção da Rosa Chá), qual a mensagem que você gostaria de deixar a quem te acompanha ao longo destes 40 anos?
Rita Lee | São várias gerações de fãs… aos sessentões e cinquentões, agradeço a fidelidade e a confiança de recomendarem minha música aos seus descendentes… aos quarentões e trintões, agradeço por apostarem em minha sobrevivência… e à juventude, agradeço pela curiosidade de ver uma múmia como eu ainda chacoalhar o esqueleto.