O ‘pai’ da Fulana

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Em entrevista, Márcio Salztrager fala sobre o processo de criação do clip de Rita Lee

A “Fulana” da canção de Rita Lee e Roberto de Carvalho ganhou vida. Através das mãos de Márcio Salztrager, um carioca de 26 anos que percebeu que havia muito mais além dos versos da historinha cantada e contada pela eterna Rainha do Rock. Resultado: um superclip, totalmente produzido em animação.
Nesta entrevista, Márcio revela os bastidores desta produção e conta um pouco sobre outros trabalhos, em uma simpática entrevista:

Durante a turnê “Balacobaco” (2003/2004), Rita Lee explicava que “A Fulana” era o outro lado da história cantada e contada por Roberto & Erasmo Carlos na canção “Namoradinha de um amigo meu”, gravada em 1966. Como e quando surgiu a ideia de transformar em clip o “então até mais” da moça?
A primeira vez que realmente prestei atenção na música foi num show da turnê “Balacobaco”. Já tinha o CD, mas essa música se destacou quando ouvi ao vivo mesmo. Talvez justamente pela explicação que ela deu contando esse lance da continuação da história da namoradinha. Achei sensacional. Daí entendi a música e passei a admirá-la. Quando pensei em fazer um clipe desse CD, meu irmão sugeriu essa música, e aprovei a ideia na hora, já que a música conta uma narrativa, tem uma historinha, o que é ideal para a construção de uma animação. O roteiro já estava todo ali.

De quem partiu a iniciativa de fazer o clip?
Márcio Foi minha mesmo. Gosto da Rita desde criança. Sempre fui fã dela e acompanho de perto a sua carreira desde moleque mesmo. Como estava estudando animação, pensei em desenvolver um clipe como exercício. Cheguei a pensar em outros artistas, mas o desafio de representar a Rita Lee me fascinou. Depois de tudo pronto que apresentei o trabalho para o casal. Então, tive toda a liberdade, fiz o que queria sem ninguém dirigir ou meter o bedelho.

Quanto tempo levou para o clip ficar pronto?
Um ano. Animação é um processo muito demorado mesmo. Pra se imaginar, são necessários 15 desenhos em sequência para cada segundo de desenho animado. Dá pra fazer a conta do numero assustador de desenhos que se precisa para cobrir uma música inteira. Para dar conta da demanda do mercado, principalmente por causa dos prazos, é necessário uma equipe grande de animadores para um trabalho como esse. Eu trabalhei sozinho. Foi bom porque tive toda a liberdade, e ruim porque tive todo o trabalho.

O que foi mais fácil e o que foi mais difícil ao longo do processo de construção dos personagens? Rolou algum tipo de participação da Rita, do Roberto ou de mais alguém?
O meu maior desafio foi representar a Rita. Queria representá-la em duas versões. Uma seria em desenho, e inspirada na Rita mutante dos anos 1960, com cabelos longos e loiros. A outra seria um boneco, a Rita de hoje em dia. Me enchi de referências e passei a observar todos os detalhes, para pescar aqueles traços mais marcantes que caracterizam o seu rosto. Então tive que fazer a representação em duas técnicas: desenhando e esculpindo. Foi a parte que me deu mais trabalho, que contei com o apoio de algumas pessoas. Eu perguntava: quem é? Daí escutei as respostas mais estranhas, e fui lapidando os personagens até chegar no resultado final. Mas a parte da construção dos personagens é uma das partes da animação que mais gosto. Você deve pensar como o personagem é fisicamente, e mais que isso, pensar como ele atua, se movimenta, se expressa. A magia da animação está ai, quando o personagem parece que atua sozinho, tem vontades próprias, está vivo. Na verdade é apenas um desenho.

Rita Lee e Roberto representados no clip

Rita Lee e Roberto representados no clip

Rita Lee e Roberto representados no clip
Rita Lee e Roberto representados no clip

Após a conclusão dos trabalhos, como foi a receptividade da dupla Rita e Roberto em relação ao clip?
Eles receberam bem o trabalho. Sempre me responderam rápido, e foram muito bacanas em liberarem o uso da música, mesmo não tendo sido um trabalho encomendado. É apenas um trabalho de um fã. Uma grande homenagem. Pra mim, foi uma honra.

Vários artistas estão, gradativamente, substituindo nos clipes as suas aparições por animações recheadas de efeitos. Como você vê a chegada deste novo filão?
Márcio Acho que a animação combina muito com o videoclipe. Na linguagem da animação, tudo é possível. É possível viajar legal nas ideias, não se tem limites. Tem um visual muito bacana, e acho que agrada a todos. Acho ótimo que o mercado fonográfico esteja valorizando esse tipo de linguagem e dando esse espaço para os animadores brasileiros. Parece que o público está gostando. Os últimos clipes em animação brasileira foram bastante premiados. Fora isso, para o artista deve ser bom, já que o clipe fica pronto sem ele nem ter que sair de casa!

Você já fez outras animações, como o clip de Cássia Eller (“Vá morar com o Diabo”) e as vinhetas do seriado “A Diarista”. Fale um pouco sobre estas e outras produções.
Pois é… Meu primeiro clipe foi para a Cássia Eller. O samba do Riachão é muito legal, né? Na versão da Cássia ficou ótimo. Queria fazer uma coisa bem brasileira, com personagens bem brasileiros e temática referente à nossa cultura. Essa música caiu como uma luva. Depois de pronto, apresentei à gravadora (infelizmente a Cássia já havia falecido) e meu desenho animado virou o clipe oficial do samba. Saiu no DVD “Álbum MTV Cássia Eller”, onde tem uma coletânea de todos os clipes dela, e esteve em exibição pelo Multishow. Há outros trabalhos meus no ar, já que sou animador da TV Globo. Participo da criação das chamadas da programação da TV. Lá fazemos lançamentos das novelas, filmes, programas, enfim… trabalhamos à beça.

Como está a repercussão do clip, e onde ele pode ser visto? Ele já está concorrendo a algum prêmio?
Poxa, está bem legal. Acho ótimo saber o que as pessoas estão achando do trabalho. Afinal, foram tantos dias de suor e dedicação. Não há recompensa maior que ouvir o que as pessoas e os fãs da Rita estão achando. Por enquanto, está em exibição somente pelo Multishow, no programa TVZ. Eles disponibilizam sempre a programação dos clipes no site do Multishow (link TVZ), onde tem também a votação para o Top TVZ. Aproveito a oportunidade para convidar as pessoas e os fãs da Rita a votarem, para que o clipe participe do Top TVZ. Vou participar também do festival Animamundi, que vai ser agora no meio do ano.

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