Em entrevista, Leandro Parente conta histórias da banda e do novo CD

Atenção ao aviso: não desligue a máquina. Ou melhor, abra ainda mais o som, que isso aí é Rock ‘n’ roll. Estas são as palavras de ordem da Banda Taska em seu quarto CD, “Não desligar a máquina”.
Formada em 1996 em Miami, depois migrando para o Brasil, Leandro Parente (voz e guitarra), Miduca Carvalho (bateria), Fabricio Gonzales (baixo) e Inho (guitarra) estão aí, independentes sim, fazendo e tocando o que querem, com muito orgulho e otimismo.
E é Leandro Parente, vocalista da Taska, que fala sobre o som e a essência da banda:
De onde surgiu o nome Taska? É verdade que a banda também já se chamou “Maracatu Atômico”, em homenagem ao cantor e compositor Jorge Mautner?
É verdade. Quando morávamos em Miami, queríamos um nome que refletisse nossa origem. Na época, Maracatu Atômico chamou atenção por remeter ao Chico Science e Jorge Mautner, e por ser um nome extremamente brasileiro. Depois resolvemos mudar de nome para algo mais “universal”, fonético e de simples memorização. Tasca (com “c”), significa boteco, pub, taverna em português lusitano. Achamos bacana esse significado, pois esse é o começo da história de qualquer banda. Resolvemos soletra-lo com “k”…só pra dar um charme.
Não é de hoje que vocês estão na estrada. De Miami para o Brasil, uma década na estrada, incluindo mudanças na formação da banda, gravadora, estilos, etc. Neste percurso, quais foram as principais dificuldades que a Taska enfrentou?
As dificuldades de uma banda independente são divulgação e distribuição. Às vezes uma rádio resolve tocar sua musica, mas não tem CD nas lojas da cidade. E não adianta botar CD em prateleira se ninguém sabe que a banda existe. Por isso, o trabalho é de formiga mesmo, sem pressa. Tem que tocar nos lugares que dão abertura pra som autoral, levar CD pra vender, usar a internet como alternativa pra divulgação, etc. Isso tudo envolve muito tempo. Mas quando se faz esse trabalho sem pressa, sem grandes pretensões ou expectativas, ele se torna mais prazeroso. Devagar e sempre.
E quais foram as maiores alegrias?
Ver alguém que nunca ouviu falar da sua banda curtir um show e comprar um CD é bom demais. Essa autenticidade é maravilhosa. Ela não foi influenciada por mídia, rádio, ou porque você está estampado na TV… é porque ela realmente se identificou com o trabalho. Fora isso, cada passo dado é uma conquista. Ver uma matéria sobre a banda num jornal pequeno, uma entrevista para um site de música, um show pequeno que reverteu em boas vendas de CD, uma música sua tocando numa webradio. Cada coisa pequena dessas é um enorme passo para a banda.
É perceptível nas letras o cuidado com a composição. Existe algum tipo de preocupação de vocês em, por exemplo, não utilizar palavrões ou termos de baixo calão e, assim, não chocar o público, como tantas outras bandas de rock fazem?
Leandro Parente Acho que a composição deve ser um reflexo de suas ideologias e personalidade, e minha preocupação é de transmitir a mensagem de forma clara e adulta. Não suporto bandas ou compositores que são uns “marmanjos” e ficam fazendo musica teenager, com letras bobas e infantis. Até entendo um garoto de 18 anos, skatista, tatuado, falar palavrão e gritar freneticamente contra o mundo. Mas eu não sou isso. Minha realidade é outra. Escrevo sobre coisas que me tocam, sobre assuntos que abordo e discuto com meus amigos ou que vislumbro em minhas horas de solidão. Normalmente são assuntos mais sérios sobre filosofia e espiritualidade. Isso dispensa os palavrões.
Ser músico no Brasil não é fácil. Dá pra viver somente de música?
No mundo independente, não. Tem que arrumar outro jeito de ganhar sua grana e tirar seu sustento. Muitos que não arrumam outro jeito de ganhar dinheiro acabam caindo numa armadilha. Quando a dificuldade vem, começam a alterar sua arte para se encaixarem no mercado mais facilmente e serem aceitos mais rapidamente. Isso acaba comprometendo a obra da banda. Eu pessoalmente trabalho em outro meio, totalmente diferente da musica. Isso me dá autonomia para continuar fazendo música sem expectativas ou pressões. Assim, mantenho minha liberdade artística, mantendo as composições imaculadas.

A faixa “Vintage” brinca com elementos do passado. O som da banda tem diversos elementos que remetem à essa estética “vintage”, como o uso de clássicas guitarras. Quais são as “relíquias das prateleiras”, ou seja, as principais referências musicais dos integrantes?
Beatles, Hendrix, Led Zeppelin, Rolling Stones, Bob Dylan, Mutantes, Casa das Máquinas. A sonoridade dos anos 1970 sempre foi a influência da banda. A simplicidade, bom-gosto de timbres, e criatividade da época são nossa inspiração para o trabalho. Quase tudo que surge hoje em dia é influenciado por estes grandes nomes. Preferimos ir direto à fonte em vez de nos espelharmos em cópias, ou subprodutos.
Vocês passaram pela extinta gravadora Abril Music, e puderam experimentar de um outro universo. Na sua opinião, é melhor ser indie e ter total liberdade no processo de criação, ou estar ligado a uma empresa que dispõe de outra infraestrutura, porém sujeito à eventuais cortes e/ou pressões?
Hoje em dia, na minha posição de vida, prefiro ser indie e arrumar alguma parceria em distribuição e divulgação. Realmente, valorizo mil vezes mais minha liberdade artística que qualquer outra coisa. Posso ter calma com as composições, gravar sem pressa e planejar tudo com mais tranquilidade. Às vezes as pressões e cobranças das gravadoras acabam deturpando e empobrecendo o próprio trabalho do artista. Outra coisa que adoro é poder prensar CDs a hora que quiser, vende-los pelo preço que quiser etc.
As faixas de “Não desligar a máquina” estão disponíveis para download no site da banda. Você acredita que, seguindo esta tendência de troca de arquivos, o formato CD, ou o tradicional conceito de compra de discos estão perto do fim?
Acho que ainda não. Eu pessoalmente adoro comprar CD, ler encartes, conhecer o trabalho completo da banda. Acho que haverá um ajuste no mercado, e novas formas de mídia estarão mais presentes no dia-a-dia. Acho que a musica digital veio pra agregar, para somar. Aliando-se à ela, o artista pode abrir novas frentes, e alcançar lugares mais distantes que ele imaginava.
Onde é possível encontrar e comprar o novo CD?
No momento, por sermos totalmente independentes, só vendemos o CD pelo site. Basta entrar em contato com a banda (bandataska@hotmail.com) que passamos as instruções. As pessoas depositam o valor em conta, e em seguida mandamos o CD via SEDEX. É seguro e artesanal. Aos poucos vamos conversando com diferentes pessoas do meio. Se Deus quiser, arrumaremos alguma distribuição para que isto seja mudado. É a vida indie.
Pra finalizar, que mensagem ou recado você gostaria de mandar para os fãs, admiradores etc? O espaço é livre.
Devagar e sempre. É isso que falo. O importante é fazer as coisas sem pressa, com naturalidade, procurando sempre aprimorar a arte da banda e trabalhar com afinco nos pontos fracos. A pressa compromete o trabalho e é inimiga da originalidade. Não devemos nunca seguir tendências, pois elas mudam rapidamente assim que alguém é ousado o suficiente pra quebrar as regras. Procure ser esse alguém que quebra as regras.

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